segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um texto clichê sobre a morte, ou seria sobre a vida?

O senso comum diz que a vida é feita de momentos. E clichês a dentro, eu concordo que no fim das contas é só isso que temos mesmo. Uma sucessão de acontecimentos fracionados e digeridos. Sejam eles bons ou ruins.

Isso veio à tona porque essa semana perdi minha vó. De todos os uber 80 da família ela era a última sobrevivente. O elo que restava com a velha guarda Fabiano Januário. E apesar de não ter tido muito contato com ela (fui criada em outro estado, leia-se há quase mil km de distância) esse foi um momento ruim. E o pior desse momento, acredite, não é a morte em si.

Aliás, acho que o que torna a perda tão sofrida não é simplesmente a partida, mas sim a certeza absoluta de que novos momentos não virão e que a possibilidade de fazer diferente já não mais existe. E o que sobra são tão somente as lembranças do que foi vivido.

E talvez, o que mais me aflija em toda e qualquer partida é o medo. Não o medo de ficar sem ou de nunca mais encontrar. Mas o medo de não ter doado o suficiente. De não ter gozado plenamente. De não vivido intensamente, enquanto era possível.

Normalmente, vivo tragada pela loucura da cidade. E os dias passam sem que eu veja. Uma segunda é sempre mais uma entre tantas já vividas. Às vezes opressora, outras bem menos.

Mas a real é que esse texto clichezento sobre a morte não passa de uma forma tosca de me redimir. De abrir a janela da consciência e gritar para mim mesma que cada dia longe de alguém que eu amo tem um preço. E é alto. Alto o suficiente para levantar dúvidas sobre as escolhas feitas.

E com a certeza de não ter de quem cobrar o resultado das minhas própias escolhas, só me resta abraçá-las e ir até o fim tentando errar menos.

E a Dona Carmem, aquela velhinha sábia que fazia brioche recheado, torta de nozes e as melhores balas de côco que comi na vida, me deu mais uma lição.

8 comentários:

looove disse...

clap, clap, clap!

gremunhoz disse...

Amora, não há como ser clichê uma coisa dessas. Tá aí um tema pra balançar até os mais espiritualizados, ninguém tá imune. Foi movida por uma intuição do cacete que peguei o corsinha e fui ao RS no final de 2005 ver 2 pessoas que faleceram na seqüência, tio Nelsão e tia Vera, duas peças importantíssimas na minha vida. Junto comigo levei o Greg, e o Geison tinha acabado de passar por lá. Foda, né? Que a loucura da cidade não trague nossa intuição e nosso AMOR. Te amo.

Joaninha disse...

:`(

:: carol monti :: disse...

fato. belo texto! me fez pensar e muito....

bjo =]

RodOgrO disse...

Pôxa, meus pêsames, Lara. :(
(e o texto está lindo, como já disseram por aqui!) ;)

Eliana Mara disse...

Fina estampa neste puf.
Meu pai biológico não me criou.
Deixou minha mãe sozinha.
E agora que está doente, eu, que pouco contato tive com ele,
estou me preparando para ir atrás dele, dar um abraço, porque me deu um medo danado se não fizer esta escolha.
Buscar o sentido da vida eu acho que passa por buscar os sentidos da morte.

Beijos

Anônimo disse...

clichê, mas belo, muito belo. Conheço esse sentimento...luto para não sentir de novo, mas as vezes esqueço, e torno a cometer os mesmos erros.
Vamos acertar!
beijos querida!

ric. (no curso, de bode, cadê o blip????)

O Digitador! disse...

Triste mesmo... espero que tenha se sentido melhor escrevendo... as vezes fazemos escolhas que realmente levam-nos para lugares diferentes de quem amamos.. mas eh a vida... cada um tem q escrever sua historia! Ahhh acho bacana seu cabelo... demonstra uma certa atitute... e uma mente aberta pra se assumir... acho q sempre devemos nos assumir e tentar viver sem grilos...relaxar e curtir esses momentos que a vida eh feita.... beijos... se cuida!